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Oficialmente o Brasil foi “descoberto” em abril de 1500. No entanto, já existia o Tratado de Tordesilhas – que definia limites de domínio de terras no Atlântico Sul por espanhóis e portugueses desde 1494. Aqui já viviam 3,5 milhões de indígenas. 

Para a ocupação, os portugueses não se intimidaram em escravizar e exterminar sistematicamente a população indígena, a ponto de hoje ela ter bem menos de 2 milhões de pessoas. A partir de 1530, começaram com o tráfico negreiro, gerando a escravização de africanos e seus descendentes, o que duraria quase quatro séculos!

No período de 1870 a 1930 o governo brasileiro financiou passagens, alojamento e ofereceu trabalho nas lavouras e colônias para italianos, alemães, portugueses, espanhóis e japoneses. 

Estes eventos contribuíram para moldar um Brasil de diferentes raças e etnias que se misturaram para formar o que hoje é um país multifacetado, multicultural e com realidade carregada de diferenças socioeconômicas.  

Do trabalho escravo, o Brasil passou para um mercado assalariado e industrializado. A busca de direitos criou as normas da CLT – Consolidação das Leis de Trabalho, que trouxe garantias ao trabalhador. Passamos por reformas tecnológicas e de flexibilização da jornada de trabalho e o atual governo enviou um projeto de lei para reduzir a jornada de 44 horas (6x1), para 40 (5x2), ou seja: 5 dias trabalhados para 2 de descanso. Está na mão do Congresso para votação.

É aí que as diferenças de entendimento da realidade se chocam, pois as diferenças socioeconômicas se estruturam e se tornam imutáveis conforme votam nossos políticos em relação a quem os elegeu: o povo. Deputados federais recebem um salário base de R$ 46.366,19 – mais verba de gabinete, cota para passagens, moradia (!), alimentação (!), plano de saúde, entre outros, que chegam a 270 mil Reais mensais. 

E há deputados exigindo indenização do governo aos empresários se passar a PL da escala 5x2; assim como políticos defenderam indenizar donos de escravos pelo fim da escravidão em 1888. Eles também estão muito preocupados com o dinheiro gasto pelo governo em assistência social aos mais carentes. Votam contra pequenos auxílios financeiros, contra igualdade de salário entre homens e mulheres, contra a PEC da segurança – ignorando que a maioria da população não tem as mesmas regalias que eles.

Senadores custam perto de 700 mil Reais por mês. Assim como os deputados, eles trabalham numa escala 3x4 – três dias de trabalho para quatro de descanso. Que causa vão defender e em favor de quem?  Que coerência podemos esperar daqueles que se espalham em 30 partidos políticos e nunca vão depender de um salário mínimo?

Somos o país que inventou vacinas contra a Covid-19, a Dengue. Fabricamos vacinas contra Febre Amarela, Influenza, HPV, Hepatite A, Hepatite B, Raiva, Influenza Trivalente, H1N1, Varíola, Poliomielite. Ao mesmo tempo, há pessoas que recusam vacinas por desacreditá-las, e há quem compre remédios ou injeções contrabandeadas e de procedência duvidosa...

Somos um país com cientistas, a exemplo da bióloga Tatiane Sampaio, que fez a descoberta do remédio para o tratamento de lesão total de medula. Por outro lado, também somos campeões mundiais em número de cirurgias plásticas desnecessárias à saúde e campeões em uso de remédios para ansiedade e depressão.

Temos um Sistema de Saúde único no mundo. O SUS nos oferece tratamento integral e gratuito, incluindo vacinação, exames, internações, cirurgias de alta complexidade, transplantes, quimioterapia, hemodiálise, atendimento de urgência - Samu, medicamentos de alto custo. Para exemplo de comparação, nos EUA – país rico – não existe acesso público universal gratuito. Consultas e internações são muito caras e despesas médicas são causa comum de falência, a ponto de famílias perderem tudo e passarem a viver nas ruas.

Somos o Brasil reconhecido por seus artistas e escritores, mas convivemos com o desaparecimento das livrarias e a multiplicação exponencial de farmácias. Em países desenvolvidos, este número é inversamente contrário: talvez uma boa leitura possa dispensar remédios para ansiedade, para dormir, para acordar...

Quando seguir influencers e idolatrar políticos virou moda? Pessoas chegam ao suicídio e famílias são destruídas pelos jogos online e vida de ostentação inalcançável mostrada por “influenciadores”. E a idolatria de governantes e bandeiras estrangeiras por alguns brasileiros, a ponto de haver pedidos para que se joguem bombas em nosso país? 

Quando a religião se tornou ameaça e motivo de disputas neste Brasil? A presença de líderes religiosos que ameaçam fiéis, se os mesmos não votarem no seu candidato é cada vez mais escancarado. E há quem acredite em falsos profetas. Caminhamos para uma teocracia?

Esta mistura de assuntos vem mostrar que ser brasileiro é viver ao lado das contradições. Muito mais poderia ser citado no caminho que não levou às “Índias”. Somos mais de 200 milhões de habitantes e em 526 anos vimos transformações no trabalho, na política, na sociedade e construímos um país consolidado em leis, baseadas na Constituição de 1988. Seguimos transformados como cidadãos de direitos e deveres; buscamos um Brasil sempre melhor; trabalhando por um país mais seguro, mais digno, mais civilizado e mais acessível a todos.


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