A Certidão do Fracasso: quando o Estado registra a tragédia que não conseguiu impedir
O Brasil tem uma habilidade curiosa: ao invés de evitar as tragédias, cria um cadastro para organizá-la depois
A frase é dura, eu sei. Mas talvez seja menos dura do que a realidade de um país que se acostumou a responder problemas profundos com instrumentos burocráticos que parecem solução, rendem manchete, ocupam discurso, dão sensação de movimento e, no fim, chegam quase sempre depois que a dor já aconteceu e não resolvem absolutamente nada.
A proposta de criação de um Cadastro Nacional de Pessoas Condenadas por Violência contra a Mulher pode ter utilidade. É importante saber quem são os condenados, integrar dados, identificar reincidências, melhorar o fluxo de informações entre órgãos públicos e impedir que criminosos se escondam na desorganização do próprio Estado. Ninguém sério deveria tratar informação como irrelevante.
O problema começa quando o cadastro é vendido como resposta suficiente. Porque cadastro não segura a mão do agressor antes da ameaça. Cadastro não acolhe a mulher que pediu ajuda e voltou para casa com medo. Cadastro não monitora sozinho uma medida protetiva que quase nunca é cumprida. Cadastro não integra, por milagre, saúde, assistência social, justiça, segurança e município. Cadastro não substitui presença, estrutura e gestão.
No Brasil, o cadastro sempre vem depois. E, para quem apanhou, foi perseguida, humilhada, violentada ou morreu, o “depois” é tarde demais e não faz sentido.
Aliás, a política brasileira adora o “depois”. Depois do escândalo, cria a comissão que faz barulho e não resolve nada. Depois da tragédia, diz que fiscaliza e corre pra criar uma leizinha pra dizer que se mexeu. Depois da falha, lança programa. Depois do crime, cria banco de dados (e fica só nele). É a velha engenharia da resposta rápida: faz-se algo visível para acalmar a opinião pública, enquanto o problema real continua sendo varrido pra debaixo do tapete institucional até o próximo escândalo fazer com que a opinião pública esqueça daquele.
E aqui convém apontar o alvo correto. O problema não está no policial que atende na ponta, no servidor que tenta dar conta do impossível, na assistente social sobrecarregada, no profissional da saúde que recebe a vítima sem rede adequada ou no agente público local que se vira pra fazer muito com pouco. O problema está acima. Está num Estado que gosta de anunciar ferramentas mas falha em construir sistemas vivos. Um Estado que empilha leis sobre leis, cadastros sobre cadastros, campanhas sobre campanhas, enquanto a proteção concreta continua cheia de buracos.
Brasília sofre de uma doença antiga: acredita que a vida real cabe num projeto de lei. Nos gabinetes refrigerados, tudo parece mais simples. Cria-se uma nova sigla, uma nova base de dados, uma nova obrigação administrativa, uma nova cerimônia de assinatura. A fotografia fica bonita, a nota oficial (às vezes) fica bem escrita. O discurso emociona. O Problema é que a mulher ameaçada não mora no ar-condicionado do Congresso. Ela mora no bairro, na rua, na casa onde o medo dorme no quarto ao lado. É essa distância que produz políticas públicas elegantes no papel, mas esquizofrênicas e frágeis na prática.
Quem vive entrincheirado em Brasília costuma falar de violência doméstica como se estivesse lidando com uma planilha. Mas a violência não obedece expediente. Não espera tramitação. Não respeita feriado. Não pausa para audiência pública. Ela acontece no caminho do trabalho, na cozinha, no quarto, no celular, na ameaça repetida, na dependência financeira, na vergonha, no isolamento e na demora do Estado em chegar onde deveria estar antes.
O Brasil não falha por falta de cadastro. Falha porque transformou a burocracia em consolo moral para sua incapacidade de prevenir. Essa é a frase que deveria estar na porta de muitos gabinetes.
A violência contra a mulher exige dados, sim. Mas exige, antes de tudo, rede. Exige município estruturado, atendimento contínuo, integração real entre órgãos, acompanhamento das vítimas, monitoramento real dos agressores, educação preventiva, resposta rápida, proteção territorial e gestão séria. Exige política pública menos apaixonada por manchete e mais comprometida com execução.
Só que execução dá trabalho. Não viraliza. Não cabe tão bem no discurso. Não rende a mesma foto. Execução exige visitar a ponta, ouvir quem atende, entender o território, corrigir falhas, medir resultado, cobrar desempenho, financiar corretamente e parar de fingir que uma lei nova limpa a incompetência acumulada por anos.
O Estado brasileiro precisa parar de tratar tragédia como oportunidade de comunicação. Precisa abandonar essa mania de responder ao sofrimento com papel timbrado, porque quando a política chega apenas para registrar o dano, ela já fracassou no que mais importava.
Uma sociedade decente não mede sua seriedade apenas pelo que faz com o agressor condenado. Mede-se, principalmente, pelo que faz antes que a próxima mulher precise virar estatística. Cadastro pode ajudar, mas não protege sozinho.
E se o Brasil continuar confundindo registrar com resolver, seguiremos fazendo aquilo que o Estado brasileiro aprendeu a fazer com triste competência: chegar atrasado, preencher formulário, divulgar nota e chamar de política pública aquilo que, na vida real, foi apenas mais uma certidão organizada do fracasso.
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