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No ano de 1965, a italiana Franca Viola foi sequestrada pelo mafioso siciliano Fillipo Melodia. Ela se recusou a casar com ele e por isso foi mantida em cativeiro por 8 dias, sendo estuprada sistematicamente. Fillipo sentia-se protegido pela lei italiana que abrigava o “casamento de reparação”: se o estuprador casasse com a vítima, seria perdoado da violência cometida e ainda seria reparada a “honra” da mulher.
Por medo e vergonha das vítimas e suas famílias, na Itália da época houve diversos sequestros e casamentos forçados. Se a vítima se recusasse ao casamento com seu agressor, ficaria marcada como “desonrada”.
Mas Franca disse NÃO! Com a ajuda dos pais, a menina que completou 18 anos após o cativeiro foi a primeira italiana a recusar a “reparação” e a entrar na justiça contra o agressor por sequestro e violência sexual. Foi um escândalo nacional que envolveu até o parlamento italiano, virando notícia internacional.
Em 1967, Fillipo foi sentenciado a 11 anos de prisão, mesma pena de 5 amigos que o ajudaram no sequestro. Depois da pena cumprida, foi expulso da Sicília por sua ligação com a máfia.
Apesar do abalo cultural na Itália, abriu-se o debate nacional sobre os direitos das mulheres, que levou à extinção da lei do “casamento reparador da honra” em 1981. Para quem pensa que demorou muito, no Brasil o mesmo tipo de lei que vigorava desde 1940 só foi abolida do código penal em 2005!
Aos 21 anos, França casou-se com Giusepe Ruisi – este que enfrentou a maldade e hipocrisia da sociedade – e tem filhos e netos. Vive com a família na mesma cidade, Alcamo. Foi homenageada diversas vezes por seu ato de coragem. Ato individual que deu fim a uma prática que culpava e calava as vítimas de violência sexual.
Tão importante quanto a vontade de Franca de não casar-se com seu agressor foi o acolhimento de seus pais, que foram hostilizados, ameaçados e perseguidos por alguns cidadãos de Alcamo - que incendiaram seu celeiro e seu vinhedo. De suma relevância foi também a atitude dos responsáveis pelas leis, que garantiram que a justiça fosse feita.
Homens e mulheres que abraçam a causa dos direitos das mulheres fazem toda a diferença na construção de uma sociedade que visa o fim de estruturas machistas e violentas contra o feminino. O enfrentamento da violência contra as mulheres é compromisso de todos.
“No dia que for possível à mulher amar em sua força e não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para se encontrar, não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia então o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal” Simone de Beauvoir
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