“O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África, afirmava no final do século XVII o padre jesuíta Antônio Vieira. Maior território escravocrata do hemisfério ocidental, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos, 40% do total de 12,5 milhões embarcados para a América ao longo de três séculos e meio. Como resultado, o país tem hoje a maior população negra do planeta, com exceção apenas da Nigéria. Foi também, entre os países do Novo Mundo, o que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico de pessoas e o último a abolir o cativeiro, por meio da Lei Áurea de 1888. Experiência mais determinante na história brasileira, a escravidão teve um impacto profundo na sociedade, na cultura e no sistema político-econômico que deu origem ao país após a Independência. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional. Estudá-lo ajuda a explicar o que fomos no passado, o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente.”
Palavras de Laurentino Gomes, jornalista e escritor brasileiro, no Livro Escravidão Vol. I, da trilogia sobre a escravidão no Brasil. Na obra ele explica que as cruéis condições dos navios negreiros mataram 1,8 milhão de escravizados na travessia do Atlântico. Os mortos que eram arremessados ao mar chegaram a formar uma rota para os tubarões, que seguiam os navios atrás de alimento. Assim, a dor e sofrimento da escravidão começava muito antes de chegar ao Brasil.
O 13 de Maio se tornou nome de liberdade para os cativos negros no Brasil por conta da resistência e luta dos que fugiam e formavam quilombos; pela pressão política e pela ação dos abolicionistas para chegar à Lei Áurea.
Após a Abolição, muitos libertos continuaram a trabalhar para seus “donos” em troca de sobreviver, mesmo em condições sub-humanas de alimentação, moradia e trabalho forçado. Não houve da parte do governo brasileiro política pública para inserir os 700 mil recém libertos à sociedade e à economia nacional. Eles não receberam qualquer ajuda para acesso à educação, à saúde e a bons empregos.
O que é a liberdade com fome, analfabeta e estigmatizada pela cor da pele? Praticamente uma sentença sombria para libertos e seus descendentes.
Entre as consequências da escravidão está o enriquecimento das famílias escravocratas, o que concentrou a riqueza na mão de poucos. A violência com que eram tratados os escravizados gerou uma sociedade violenta, e a aversão a trabalhos manuais e braçais por parte da população nasceu de uma sociedade escravocrata que não trabalhava embaixo de sol, enquanto os escravizados realizavam os trabalhos mais pesados.
Por serem os escravizados de cor negra, o sentimento de desumanização que lhes foi imposto gerou o preconceito e o racismo contra pretos, pardos e seus descendentes. Todas são sérias consequências deixaram marcas que perduram até hoje em nossa sociedade.
A história da escravidão abrange relatos de dor, sofrimento e traumas compartilhados e transmitidos por muitas gerações. Além de uma passado de resistência, os escravizados e seus descendentes produziram cultura e conhecimento que passaram por um processo de apagamento, silenciamento e invisibilização que ainda perduram.
Conforme o último Censo (2002) a população negra no Brasil – pretos e pardos – totaliza mais da metade, aproximadamente 56%. Pobreza, analfabetismo, criminalidade, falta de estrutura escolar e de saúde; além da desigualdade no acesso ao mercado de trabalho atingem com muito mais força esta população.
Se a escravidão durou 3,5 séculos e a abolição da escravatura tem 138 anos, é fácil ver que somos um país que viveu mais tempo maltratando e marginalizando parte da sua população do que lhe oferecendo reais oportunidades. Para quem considera que vivemos em igualdade, lembremos que o ponto de partida de direitos para escravocratas, escravizados e descendentes se deu com vantagem de 350 anos para os primeiros.
Não se trata de apontar culpados, mas de assumirmos que as desigualdades (extremas) e falta de equidade existem e que todo um país precisa ser melhorado. Uma país que tem pouco mais de um século de abolição ainda é criança na educação da consolidação de direitos iguais para todos. A conquista da justiça social é um longo caminho a ser trilhado nesta terra de tantos matizes.
Fontes pesquisadas: www.ministeriodosdireitoshumanosecidadania.com.br / www.mundoeducacao.uol.com.br / www.escolakids.uol.com.br
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