O apresentador de TV Luciano Huck declarou num evento de empresários em São Paulo que o programa social Bolsa Família cria dependência dos beneficiados, desestimulando-os a trabalhar. Um pastor de projeção nacional comparou recentemente os pobres a porcos, dizendo que o Bolsa Família serve de lavagem.
São falas e atitudes que passam a ideia de desprezo àqueles que são vulneráveis economicamente. Reforçam preconceitos e desinformação sobre um dos maiores programas de transferência de renda do mundo. Sugerir que beneficiários do Bolsa Família tentam ficar para sempre dependentes mostra uma visão falsa e simplista da pobreza.
Os dados mostram: a maioria dos beneficiados trabalha, busca melhorar de vida, usando o programa como apoio temporário. Após aumento de renda ou obtenção de emprego formal, mais de 2 milhões de famílias deixaram o programa em 2025. Hoje o programa atende perto de 19 milhões de famílias, contra os 21,6 milhões em 2022.
Estudos da Fundação Getúlio Vargas apontam que a garantia de renda mínima favorece a mobilidade social, empreendedorismo e acesso ao mercado de trabalho. Concluíram que em 10 anos mais de 60% dos beneficiários conseguiram deixar o Bolsa Família.
O programa também teve um papel importante na saída do Brasil do mapa da fome da ONU. Os que preferem o auxílio a buscar trabalho são minoria, haja vista que o valor do Bolsa Família é de R$ 678,00, enquanto o valor da cesta básica oscila entre R$ 650,00 e R$ 900,00. Portanto, não cobre despesas básicas de comida, vestuário, moradia, transporte e outros gastos.
Vivemos num país em que ajuda aos vulneráveis precisa ser explicada, enquanto as elites não sabem como explicar tanta concentração de riqueza. O apresentador tem patrimônio estimado em R$ 1 bilhão (!), o pastor em R$ 15 milhões (!).
Não se fala em dependência quando grandes empresários recebem perdão fiscal, refinanciamento milionário, juros favoráveis, isenções ou socorro estatal. Então é apelidado de “incentivo ao mercado”.
Recentemente foi homologado um acordo para socorrer financeiramente o Banco de Brasília, que sofreu um rombo estimado em R$ 8,8 bilhões no envolvimento em fraudes com o Banco Master – liquidado pelo Banco Central recentemente. Já foi acertada a quantia de R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor para custear a farra de políticos e empresários bandidos.
Em maio a Câmara de Deputados aprovou a PEC que amplia imunidade tributária para entidades religiosas. Já existe imunidade para entidades e trabalhos religiosos. A PEC 2/23, que tem como primeiro signatário o líder religioso deputado Federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) será levada ao Congresso. Entre outras facilidades, terão direito, por exemplo, a não tributar palestras – que podem gerar até R$ 200 mil de ganhos – ou comprar mansões, templos luxuosos, jatinhos, helicópteros sem tributos, desde que declarados como bens de uso religioso. Quando o dinheiro público serve a poderosos que usam o nome de Deus, parece que está tudo certo.
Neste ano, pela primeira vez, o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil foi considerado muito alto. Segundo o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, numa escala de 0 a 1, o país saiu de 0,744 em 2012 para 0,85 em 2026. Condições associadas ao Bolsa Família, que exigem que as crianças frequentem a escola, foram essenciais para levar o IDH em educação de 0,679 para 0,798.
Os dados oficiais revelam que há, sim, mobilidade social para aqueles que foram antes “filhos do Bolsa Família” e hoje são adultos com mais escolaridade que os pais, ocupantes de melhores empregos e outros indicadores socioeconômicos positivos; desfazendo a narrativa de acomodação e dependência. O programa foi e é ponte para mudanças que interrompem um ciclo de miséria para as gerações futuras.
Parece que todas essas conquistas incomodam muita gente que faz parte de uma elite que nunca sofreu insegurança alimentar, e diz que o porco vai votar em troca de lavagem. Que incentiva o desprezo e o ódio aos mais vulneráveis e às políticas sociais. Convence com atitudes e palavras que aqueles que precisam de ajuda não têm dignidade. Diz que não se esforçam o suficiente.
A realidade brasileira de trabalho mostra um cenário de jornadas longas, deslocamentos cansativos, aliada a que milhões de pessoas conciliam trabalho, estudo e trabalhos domésticos. Dizer que o povo é preguiçoso culpa somente o indivíduo e esconde problemas estruturais que formam um sistema que precisa ser questionado.
“Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas, acham que se gasta demais em política social”. Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai
Fontes consultadas: Portal Câmara dos Deputados; Infomoney.com.br; agenciabrasil.ebc.com.br; uol.com.br : vídeos por Leonardo Sakamoto e Diemerson da Costa
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