Amparo para toda a família, Verônica cuidou dos irmãos, cunhados, filhos e também dos netos
De uma infância marcada pelo trabalho e por apenas dois anos na escola, à emoção de ver os filhos formados. Verônica Bonetti Estoele construiu em Otacílio Costa uma história cercada por filhos, netos e bisnetos, enfrentou perdas profundas e chegou aos 80 anos com uma certeza: “Foi sofrido, mas valeu a pena”
A casa onde Verônica Bonetti Estoele vive há mais de cinco décadas já foi cheia. Muito cheia. Por ali cresceram os filhos, passaram irmãos, cunhados e familiares. Dali os filhos saíram para construir suas próprias famílias. Vieram os netos, depois os bisnetos. Hoje, aos 80 anos, Verônica mora sozinha, mas basta ouvi-la contar sua história para perceber que, na verdade, sua vida nunca deixou de ser cercada de gente. “Eu sempre vivi assim para a família”, resume.
Verônica completou 80 anos no dia 8 de setembro. A data foi celebrada com uma grande festa, em Rio do Sul, no dia 6, reunindo mais de 100 pessoas entre familiares e amigos. Uma comemoração à altura de uma trajetória que atravessa oito décadas.
Natural da região do Alto Vale do Itajaí, Verônica passou parte da infância em Rio do Sul. Aos 13 anos, retornou com a família para a região de Otacílio Costa. O pai permaneceu alguns anos e depois voltou para Rio do Sul. Ela, porém, ficou.
A razão tinha nome: Adelão Estoele.
Os dois se conheceram em Otacílio Costa. Antes do namoro, foram amigos. Adelão chegou a morar como pensionista na casa da família de Verônica. Depois que saiu de lá, a amizade virou namoro.
Em 3 de outubro de 1962, aos 16 anos, Verônica se casou.
O casamento civil aconteceu no cartório e o religioso em uma antiga capela de Santo Antônio, existente na época em uma área ligada à empresa onde viviam diversas famílias de trabalhadores.
Alguns anos depois, o casal foi morar em Rio do Sul, onde Adelão trabalhou para a prefeitura operando máquinas. Mas a passagem foi curta. Ele gostava de Otacílio Costa e, durante um período de férias, decidiu retornar. “Ele voltou pra cá porque gostava muito daqui”, recorda Verônica.
Uma casa cheia de histórias
Antes de chegar à residência onde vive atualmente, no Bairro Pinheiros, Verônica passou por diferentes casas, inclusive no Bairro Fátima. Até que uma negociação relacionada à empresa em que Adelão trabalhava possibilitou que a família ficasse com o imóvel que se tornaria seu lar definitivo. “Era uma casinha velha, caindo já tudo”, lembra.
A velha casa, no entanto, tornou-se o cenário de praticamente toda a história da família. Verônica calcula que vive ali há cerca de 55 anos.
Foi ali que os quatro filhos — Eronilza, Marisa, Josela e Fabrício — cresceram. Todos passaram pela casa até iniciarem suas próprias famílias.
Mas não foram apenas os filhos.
Verônica nasceu em uma família de 14 irmãos e era a mais velha. Por isso, cuidar dos outros começou muito antes de se tornar mãe.
Ainda criança, por volta dos oito anos, já trabalhava como babá e ajudava a cuidar dos irmãos mais novos. Também trabalhou como empregada doméstica e, durante a juventude, no antigo Hospital Cruzeiro.
Quando se casou, aos 16 anos, sua mãe estava grávida novamente.
“Eu disse: ‘Essa eu me escapei, porque agora eu já cuidei de todos’. Mas Deus disse: ‘Não escapou, não’”, conta, sorrindo ao recordar.
Anos depois, sua mãe morreu aos 51 anos, deixando filhos ainda menores. Uma das irmãs, então com 13 anos, passou a morar com Verônica e permaneceu em sua casa até se casar. Outros irmãos e cunhados também encontraram ali um porto seguro.
“Minha casa sempre foi cheia.”
Três irmãos chegaram a se casar enquanto moravam com ela. E foi assim que, entre os próprios filhos e irmãos, Verônica construiu uma vida em que cuidar dos outros se tornou quase uma extensão de quem ela era.
Mulher de caminhoneiro
Avelino trabalhou durante muitos anos como caminhoneiro. Gostava da estrada e, segundo Verônica, conheceu boa parte do Brasil dirigindo. Mas quem permanecia em casa precisava assumir a rotina da família. “Não era fácil ser mulher de caminhoneiro.”
Havia períodos em que o marido passava meses viajando. A responsabilidade pelos filhos, então, ficava praticamente toda com dona Verônica. “Eu tinha que ser mãe e pai. Fui educando do meu jeito e eduquei bem.”
Ela conta que, naquele período, também eram poucas as possibilidades para uma mulher casada trabalhar fora. Não havia creches como atualmente e, além dos filhos, sua casa permanecia cheia de familiares.
Adelão seguiu trabalhando mesmo depois da aposentadoria. Mais tarde, deixou as viagens longas e adquiriu uma caminhonete para realizar fretes, principalmente para propriedades rurais. “Ele gostava do que fazia”, relembra dona Veronica.
Nos últimos anos, porém, problemas de saúde o obrigaram a deixar o trabalho. Foram cirurgias e períodos prolongados de tratamento, durante os quais Verônica voltou a assumir o papel que tantas vezes desempenhou ao longo da vida: o de cuidadora.
Adelão faleceu em 2012. Na despedida, a igreja ficou lotada.
Verônica lembra que um padre, impressionado com a quantidade de pessoas que compareceram, teria perguntado a uma ministra se o “Seu Delão” era um homem rico.
A resposta ficou guardada na memória da família: “Não. Ele é rico de amizade só.”
“Eu só pedia força e coragem”
A morte do marido seria apenas uma das grandes perdas enfrentadas por Verônica em um período de poucos anos.
Depois vieram a morte da nora Danuza e a da filha Eronilza, a Niza, como era carinhosamente conhecida, além da perca de uma irmã.
Foram anos de hospitais, cirurgias, tratamentos e despedidas.
Em determinado período, Seu Delão e a Niza chegaram a permanecer internados ao mesmo tempo. O marido enfrentava problemas graves de saúde enquanto a filha precisou passar por uma cirurgia de urgência.
Verônica pediu que os dois ficassem em quartos próximos. “Eu cuidava dele aqui e ela lá. Ficava lá e aqui, lá e aqui.”
Niza já havia enfrentado uma doença rara que exigiu tratamento e cirurgia em São Paulo. Durante essa fase, Verônica contou com a ajuda de pessoas que até hoje considera parte da família. Entre elas está Juce, sua vizinha de rua, que acompanhou a filha durante parte do tratamento. “Eu sempre digo pra Juce: eu vou morrer e não vou pagar tudo, só em oração pra ti. Ela é uma filha pra mim.”
A filha enfrentaria outros problemas de saúde e, posteriormente, um AVC. Dona Verônica esteve ao seu lado. Niza faleceu em 2018, em Lages, no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres.
Também esteve com o pai no momento em que ele faleceu. Anos depois, estava sozinha com um irmão hospitalizado em Blumenau quando ele também morreu, experiências que, segundo ela, foram ensinando algo que nunca imaginou precisar aprender. “Acho que as próprias coisas que acontecem vão te dando coragem.”
Durante os períodos mais difíceis, seu pedido nas orações era simples: “Eu quero só força e coragem. Força e coragem.”
Hoje, olhando para trás, ela se pergunta como conseguiu. “Até hoje eu fico assim: ‘Meu Deus, como é que eu pude passar tudo isso?’”
A avó que ajudou a criar os netos
As perdas não trouxeram apenas a dor da despedida. Havia crianças que precisavam continuar sendo cuidadas. Com a morte de Danuza, Fabrício ficou com as filhas. Verônica passou a ajudar na rotina das meninas enquanto o filho trabalhava e viajava.
Ela fala com orgulho da dedicação dele. “Fabrício sempre foi um paizão.”
Niza também havia se comprometido a ajudar o irmão com as sobrinhas. Porém, alguns anos depois, ela faleceu.
No total, Verônica viu cinco netos perderem suas mães. “Aquilo me doeu muito, ver meus netos sem mãe.”
Talvez por isso repita até hoje: “Eu quero ver meus netos amparados.”
Ao todo, Verônica construiu uma família que hoje inclui filhos, nove netos e cinco bisnetos. E basta falar deles para a voz mudar. “Os netos são tudo pra mim. Os bisnetos, a mesma coisa.”
O sonho de aprender
Se a família é um dos grandes pilares da história de Verônica, a educação é outro. Ela entrou na escola somente aos nove anos. Morava em uma região onde o acesso ao ensino era difícil, mas antes mesmo de aprender a ler já tinha fascínio pelas palavras.
Uma prima costumava frequentar a casa e ler. Verônica ficava por perto e insistia: “Lê alto, lê alto”, queria ouvir porque sonhava em conseguir fazer aquilo sozinha. “Eu tinha paixão pra aprender a ler.”
Na escola, encontrou uma sala em que um único professor ensinava alunos de diferentes séries. Verônica fazia as próprias atividades e depois prestava atenção no conteúdo dos mais velhos.
Aprendeu a ler e escrever, mas a vida escolar durou pouco. Uma mudança na estrutura das escolas da região prejudicou aquele ano letivo e, por volta dos 12 anos, a mãe decidiu que ela deveria trabalhar. “Minha mãe me tirou da escola e me botou trabalhar.”
Foram aproximadamente dois anos de educação formal. “Eu não tive muita infância nem adolescência, porque desde pequena eu já trabalhava.” Mesmo assim, nunca abandonou a curiosidade. “Eu aprendi muito lendo.”
Já adulta, chegou a procurar novamente uma modalidade de ensino para tentar aperfeiçoar a escrita, o NAES. “Eu queria aprender português. Era meu sonho saber escrever melhor.”
A herança que ninguém tira
Talvez por não ter tido a oportunidade de estudar, Verônica transformou a educação dos filhos em prioridade. Marisa foi uma das filhas que se destacou nos estudos. Quando decidiu prestar vestibular para Pedagogia, disse à mãe que queria apenas testar seus conhecimentos.
Verônica sabia que a família não tinha condições financeiras de pagar uma faculdade.
E confessa, hoje, algo que na época guardou para si: “Eu rezei pra ela não passar.”
Não era falta de orgulho. Era medo. “Eu dizia: ‘Meu Deus do céu, como é que nós vamos pagar essa faculdade pra ela?’”
Marisa passou. “Agora eu vou estudar”, disse à mãe. E a família se mobilizou.
A filha trabalhou, recebeu ajuda dos familiares e encarou uma rotina pesada entre emprego, estágio, ônibus e aulas em Lages. Houve dias em que Verônica não tinha dinheiro sequer para que a filha comprasse um lanche. “Tinha dia que eu ficava chorando quando não tinha dinheiro pra ela fazer um lanche.”
Mas desistir não era opção.
Quando Seu Delão demonstrou preocupação com os custos da faculdade, Verônica respondeu: “Ela quer. Vamos nos esforçar.” E completou: “É uma herança que nós vamos deixar pra elas.”
O dia da formatura ficou marcado. “O dia que a Marisa se formou, eu chorava. Foi lutado, batalhado, mas valeu a pena.”
Outros filhos também estudaram e construíram suas trajetórias profissionais. E aquilo que Verônica não pôde viver tornou-se uma conquista por meio deles.
Hoje, o mesmo conselho é repetido aos netos e bisnetos.
Aos 80, ainda há planos
Verônica passou 27 anos participando do Coral Santa Catarina. Faz pilates, caminha, cuida do quintal, vai à missa e continua ajudando os netos.
A casa que já recebeu tanta gente hoje é silenciosa em alguns momentos, mas não por muito tempo. Filhos, netos e bisnetos continuam chegando.
Em uma das visitas recentes, o pequeno bisneto Miguel chegou pedindo sopa. Como havia risoto, a família precisou convencê-lo de que aquilo também era “sopa”. Funcionou.
É contando histórias assim que Verônica sorri.
Depois de uma vida inteira cuidando dos outros, ela ainda faz planos. Já viajou bastante pelo Sul do país e pretende conhecer o Uruguai.
Admite que os 80 anos fazem pensar sobre o tempo. “Às vezes eu fico meio negativa, mas depois eu me animo de novo.”
Talvez porque, quando olha para trás, Verônica não enxerga apenas as perdas. Vê a menina que queria aprender a ler, a irmã mais velha de 14 filhos, a jovem que se casou aos 16 anos, a mãe que criou quatro filhos, a esposa de caminhoneiro que segurava a casa enquanto o marido cruzava o Brasil, a mulher que atravessou corredores de hospitais, a avó que ajudou a amparar os netos e a mãe que chorou ao ver a filha receber um diploma que ela própria nunca teve oportunidade de buscar.
“Foi uma vida boa. Tive uma família, um pai maravilhoso, minha mãe... Eu me criei numa família bastante sofrida, mas acho que valeu a pena.”
E se depois de 80 anos Verônica pudesse deixar um conselho para quem está começando a própria história, ela escolheria justamente aquilo que um dia lhe faltou: “Tem que estudar. Tem que ler e estudar, porque eu não pude estudar.”
Ao final de quase uma hora revisitando oito décadas de lembranças, Verônica encerrou como quem volta ao cotidiano de uma casa que sempre teve as portas abertas para a família: “Maria, vamos tomar um cafezinho com uma cuquinha?”.
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