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Estrelinhas: A dor do outro não é trampolim

Coluna publicada na edição impressa do dia 27/03

Em tempos de redes sociais, tragédias viram palco, e qualquer lágrima pode ser convertida em curtida. A linha entre empatia e oportunismo político está cada vez mais tênue — e tem cada vez mais gente tropeçando nela.

Recentemente, um episódio envolvendo um prefeito ganhou repercussão negativa nas redes sociais e nos bastidores da política. Tentando associar sua trajetória pessoal ao delicado estado de saúde do humorista Whinderson Nunes, esse gestor utilizou um momento de comoção nacional para tentar reforçar sua imagem e, supostamente, ganhar atenção positiva. O efeito, porém, foi exatamente o oposto.

A tentativa de engajamento — claramente baseada em uma estratégia de storytelling emocional — soou artificial, forçada e, principalmente, oportunista. O prefeito cruzou a linha tênue entre empatia legítima e exploração da dor alheia, em um episódio que nos convida a refletir: quais são os limites éticos da comunicação política? Até onde vai o “vale tudo” em busca de visibilidade?

Não há dúvidas de que emoções são ferramentas poderosas na política. Grandes líderes da história — de Jesus Cristo a Nelson Mandela, de Lula a Barack Obama — souberam utilizar suas histórias de superação, dor e resistência como instrumentos de mobilização e inspiração.

No marketing político, isso tem nome: storytelling. O uso de narrativas pessoais serve para criar identificação com o eleitorado, despertar empatia e reforçar a imagem de um líder que "sabe o que é sofrer".

Mas há um detalhe essencial: essas narrativas precisam ser genuínas, oportunas e respeitosas. Quando utilizadas fora de contexto ou sem uma ligação legítima com o fato em questão, elas perdem o efeito e produzem o que chamo de rejeição por incoerência.

O erro estratégico do prefeito não foi usar a técnica, mas ignorar o contexto. A saúde de Whinderson Nunes é um tema sensível, íntimo, que envolve luto, saúde mental e traumas pessoais. Fazer disso uma ponte para falar sobre si mesmo, sem qualquer relação direta com a situação, foi interpretado como um gesto frio e calculista.

Em tempos de hiperconectividade, em que as redes sociais funcionam como tribunais da moral pública, o timing é tão importante quanto a mensagem. E o que não é percebido como autêntico é rapidamente cancelado — mesmo que tenha vindo da melhor das intenções.

Política se faz com narrativa, mas também com sensibilidade. Liderar é, antes de tudo, saber ler o espírito do tempo, entender o que mobiliza a população e como a comunicação pode contribuir — e não agravar — os dilemas coletivos.

Vivemos tempos em que a emoção é capital político. Mas a emoção usada de forma errada vira armadilha. Não é sobre como “parecer humano”, mas sobre ser humano. 

A comunicação política precisa, sim, ser estratégica, mas jamais pode perder sua alma. Porque sem empatia real, o “vale tudo” vira “vale nada”. E o eleitor, cada vez mais consciente, sabe distinguir um gesto verdadeiro de uma jogada marqueteira disfarçada de solidariedade.

No fim das contas, não se trata de falar de si, mas de falar com o outro, para o outro — e pelo outro. E essa é uma arte que exige mais do que estratégia: exige verdade. Porque se a empatia for só uma ferramenta de marketing, a conta vai chegar nas urnas.


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