Quando a infodemia a serviço da desinformação é mais mortal do que a própria pandemia

Como ideologias politizam tratamentos e expõem a população a riscos desnecessários em nome da construção de uma narrativa

Já se passaram mais de 470 anos desde que o matemático, astrônomo, jurista, médico e cônego da igreja católica, Nicolau Copérnico, declarou que "a ciência é ¬filha da verdade e não da autoridade". Copérnico foi o autor original da teoria heliocêntrica, que colocava o sol como centro do sistema solar. Seu problema foi esbarrar no dogma da igreja da época, que acreditava ser a Terra era o centro do universo.

A frase era uma crítica velada à perseguição à sua teoria, que acabou aperfeiçoada, mais tarde, por Galileu Galilei, comprovada até que, posteriormente, a própria igreja reconheceu o erro, reconhecendo o heliocentrismo como verdade científica. Centenas de anos, alguns séculos e algumas pandemias depois, vivemos dias que são o retrato do atraso do Brasil, numa amostra clara de que parte da sociedade parece viver, ainda, sob os auspícios do século XVI. Não aprendemos nada. Pior, aquilo que antes era restrito, nestes tempos de redes sociais se torna escancarado.

Rumores, mentiras e manipulações sempre existiram ao longo da história humana. O problema é que, nesta era de mídias sociais, a dinâmica e as regras de exposição de ideias e narrativas mudaram e catapultaram todo tipo de dados, criando uma infodemia que, quando cooptada para interesses diversos, vem se mostrando ser potencialmente muito mais perigosa e mortal do que qualquer vírus. Hoje em dia, um único usuário tem, potencialmente, o poder de publicar uma informação que pode alcançar o planeta.

Essa infodemia, com seu absurdo excesso de informações, bombardeia nossa mente todos os dias desde março de 2020, e vem criando rupturas perigosas no tecido social a medida que informações selecionadas são cooptadas para favorecer esta ou aquela narrativa. E enquanto as informações circulam pra lá e pra cá, esquecemos de alguns pontos fundamentais pra não ficarmos a mercê das Fake News que tentam manipular as massas, que tentam encontrar um caminho em meio ao caos que o coronavírus criou.

Pior, quando o uso das informações servem à desinformação, na disputa da opinião pública, num contexto em que a fragmentação desse tecido social é ainda mais forçada, ela tira de nós exatamente aquilo que precisamos: saber quem é confiável no meio deste mundo de dados. Ideologias, neste contexto, assumem a mais horrenda face da humanidade, expondo pessoas a riscos desnecessários em nome, unicamente, de angariarem seguidores, numa verdadeira apoteose da ignorância que sequer disfarça a própria incoerência.

Aí vemos, de um lado, pretensos arautos da ciência politizando e demonizando remédios que tem o potencial de combater sintomas, sob alegação de não terem comprovação científica, e de outro pretensos donos da razão demonizando vacinas enquanto endossam remédios que ainda não tem eficácia comprovada. E o fato real é que nenhum dos dois lados tem qualquer legitimidade para falar nada com coisa nenhuma, já que não são, bem? cientistas.

No fim das contas, citar Copérnico, 470 anos depois, é importante para nos fazer lembrar de legitimar quem tem, de fato, legitimidade para falar sobre pandemia, que são os médicos, infectologistas e afins. Ao considerar isso, veremos que tudo ainda está em processo de verificação, porque o método da ciência é a observação. Se nem quem lida e se preparou estudando, por anos, teve condições, ainda, de chegar a conclusões definitivas, não são os formados nos artigos do Facebook, à direita ou à esquerda, que terão as respostas. Não permita que a infodemia dessa gente infecte você.

Assim como no caso da pandemia, já tem vacina pra esse tipo de coisa também. O nome é ciência.


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