Somos quem queremos ser?

A expressão "cada um no seu quadrado" soa quadrada demais para as jovens gerações. Lembra uma linha de produção, onde todos são iguaizinhos e não transcendem nenhum limite. Esses jovens, que estão mais para o "pensar fora da caixa", estão dando às gerações anteriores uma lição bastante interessante, que merece ser aprendida por nós, que somos pais. A lição de aceitação e respeito à verdade interior.

Grande parte dos adolescentes, jovens e até as crianças de hoje têm muito mais facilidade de aceitar as diferenças dos outros e de assumir as suas próprias. Assumir um estilo visual fora do padrão, uma profissão não tradicional ou mesmo uma orientação sexual diferente da de seus pais já não é tão dramático quanto seria para nós há algumas décadas. E essa liberdade de ser o que se quer ser provavelmente dará ao mundo adultos mais bem resolvidos.

Dia desses li uma entrevista do jornalista Marcelo Tas, na qual ele contava como é ser pai de um transexual. Vencidas as dificuldades iniciais de aceitação, eles continuam formando uma família verdadeira, onde existe amor e compreensão. Num trecho da entrevista, o apresentador diz: "A vida é tão curta. Perdemos muito tempo desperdiçando oportunidades de ser feliz, de estar bem com as pessoas. Pais, não abram mão da vida e de seus filhos por causa do preconceito".

Orientação sexual, cor de cabelo, escolha da profissão não devem mudar o que os pais sentem pelos filhos. É claro que algumas escolhas deles são difíceis para nós. Mas nosso papel é orientar, apoiar e dar estrutura para que não dependam de nós, nem financeira nem emocionalmente. O que de melhor podemos proporcionar aos nossos filhos é aceitar que eles são seres novos, completos, não uma continuação de nós.

Talvez nossa resistência a certas novidades se dê pelo fato de não termos nos permitido essa autenticidade. Para muitos de nós, talvez, o principal na juventude tenha sido justamente o contrário: nosso esforço era em ser o mais "encaixados" possível nos padrões estabelecidos. Isso pode ter gerado adultos frustrados em alguns sentidos.

É uma questão de evolução. Felizmente vemos com muito menos frequência casamentos arranjados, jovens grávidas expulsas de casa, crianças com doenças mentais escondidas num quarto. À medida que cresce a aceitação pela condição do outro, cresce a aceitação pelo que realmente somos e queremos ser. Autenticidade requer coragem numa sociedade ainda bastante castradora.

Claro que a nova geração também traz novos problemas. O recém-lançado livro "iGen: Por que as crianças superconectadas estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes - e completamente despreparadas para a vida adulta" já aponta alguns deles no próprio título. A publicação foi baseada em pesquisas e entrevistas em profundidade com 11 milhões de jovens americanos. A autora do livro, Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos Estados Unidos, concluiu que a "geração smartphone" - aqueles que nasceram a partir de 1995 - vem amadurecendo mais lentamente que as anteriores. Por outro lado, segundo o estudo, é uma geração bem mais tolerante com pessoas diferentes e ativa na defesa de direitos LGBT e da população. Mas que, acima de tudo, acredita que as pessoas devem ser o que são.

Anterior

Vida sobre rodas

Próximo

Somos quem queremos ser?

Deixe seu comentário